domingo, dezembro 30, 2007

162

Com calma, eu tiro os anzóis dos dedos do filho do patrão. Ele me olha com confiança e eu com medo digo que não vai doer nada. Pouco pode-se esperar de um semi-analfabeto e esse rapaz confia no pouco que eu sei. O anzol foi retirado, alívio para ambos. De volta a casa do seu Patrão eu ouço um rebuliço lá de dentro. Os patrões estão discutindo sobre algo. Estou me aproximando e entendo que o problema é a minha presença que acaba por constranger as crianças porque eu ando armado, segundo a dona Simes. O velho Patrão nitidamente desnorteado sabe que me tirando daqui atrapalharia muito sua vida (fora o rabo preso que ele tem comigo quando o encontrei com a irmã mais velha da dona Simes.). Ele viu que estava ali e logo me convidou para sentar. Disse dos meus valores e prestividade para depois me propor um novo emprego junto a um amigo na cidade. Eu queria ir embora mesmo e então foi nessa oportunidade que fui. Arriei o cavalo, peguei um cobertor e um saco com paçoca. Uma mala velha de minha avó e algumas reservas para quando chegasse lá tivesse onde dormir. Acendi um paieiro como despedida, coloquei o chapéu e pensei que eu não deveria ter recusado a maçã da dona Simes. Com 25 anos pra completar em um mês, não é coisa de homem fugir do destino. O meu era ser alguém mais que meus ancestrais. Um caso sério que deu ceerto na vida e devolveu a família todo tipo de riqueza que o trabalho trás.

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De um lado vi ramos, do outro, cascas. Nada que plantasse ali poderia não brotar. Os cascos do cavalo Tristão já gastos e com fissuras como a dos meus calcanhares sujos de terra. Ali no alto do corgo, um lobo guará foi encontrado ainda filhote e criado pelas crianças da fazenda. Um dia seu Patrão me chamou e eu dei cabo do serviço para lá da represa. As crianças choraram umas pela perda outros pela morte. Dona Simes trouxe lá da boqueirão dois gatos dentro de uma saca de arroz sujo que devolveram a alegria da Maria e do Pedro. Parece que eu matei a felicidade deles e não do lobo.
Pouco antes da hora do passeio à cavalo pela dona patroa, era comum eu avisar a criada Ester para arrumar uma pequena cesta para que levasse na cavalgada. Eu a acompnahava a pedido do seu Patrão e geralmente fazia o caminho com mais sombra que chegaria há um grande salgueiro, lugar este, onde acostomava a deitar um lençol azul claro. Puxava um livro de seu embornal e perguntava para mim e se queria uma "maça saborosa". Dona Simês ficava pouco menos de dez minutos e já começava a dormir. Quando via que estava já em roncos, deixava-a um pouco para fazer minhs necessidades. No agachar no meio do capim é comum a presença de moscas e formiga. É preciso aproveitar as folhas que estão à mão nomomento, que não seja sendo urtiga ou carrapicho, para fazer uma boa limpeza. De volta à fazenda, uma parede branca, imensa e coberta por janelas de madeiras pintadas de azul escuro. Aqui na fazenda, eu ainda faço mais trabalho para juntar dinheiro para a passagem. Quero ir para fora dessa terra e encontrar o que não achei em mim. Nem o nome que escolheram para mim - Hadilson - corresponde como o meu jeito de ser, viver e escolher.
Lá na ponta da represa tem um altar coberto que parece uma caverna que demorei uma semana para fazer. Hoje só tem pedaço de Santa Bárbara e o as velas que acendi ao longo do tempo, mas eu vou assim mesmo pedir com fé à Mãe Imaculada que me leve para fora desse mundo e me deixe viver em outro. Por mais de 25 anos esssa oração me persegue e eu não desisto. O meu próximo plano é pregar placas na estrada de terra indicando o caminho para a fazenda. Queria fazer a mesma coisa para mim. Placas que me dissessem para onde eu ir...

quarta-feira, dezembro 26, 2007

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Ilusões de cicatrizes. De dia faz noite. Minha vontade não chega tão longe e então as ambições não vão muito longe. Convites esgotados para a festa de despedida dos meus neurônios sãos. Alegria e alegria. O frio que você não sente e me congela todos os dias. Pode o amor ser mais sincero ou tudo é questão científica? É preciso tangibilidade, a prova presente e o fato apurado. Sintonias a parte, por que tão distante? Foi um pouco mais de fiasco de uma noite de balada? Contente vou ficar ao saber que o nada corta e escorre solidão. Vá e veja. Amanhã é privilégio de quem tem presente. E nesse fim de ano eu não estive...presente.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

159

sim, catástrofe.
do Lat. catastrophe katastrophé

s. f.,
desfecho de uma tragédia;
grande desgraça;
calamidade;
fim lastimoso.

É Natal. Capitalistamente(sic) e Religiosamente correto.
No entanto eu sinto a presença de uma catástrofe...
Está tudo muito quieto no "sistema internacional"...
Sobreviveremos ao movimento catastrófico? Sim.
Afinal, Já chorava Nelson Gonçalves as letras de Cardim:

"Quem sou eu pra ter direitos exclusivos sobre ela
Se eu não posso sutentar os sonhos dela
Se nada tenho e cada um vale o que tem"

domingo, dezembro 02, 2007

157

NESCHAMAH

Já faz tempo que não vejo sorrisos no espelho...
Nem os gafanhotos que eu brincava
pairam mais na minha frente.
A flor vermelha que eu colhia ,
A flor que eu não deixava viver ...
O cheiro do mar
Que quase não via.
A febre e o delírio,
O som do vento na fresta da janela,
Cegam-me hoje.
Do que eu via no céu
Ainda resta Plêiades e o Cruzeiro.
Na minha vida,
O passado é minha eterna casa.
O meu amor distante
Em alguma dimensão,
Visita-me entre os sonhos.
O amargo,
Que sobrepõe o doce,
Na minha boca
Que um dia experimentou o gosto de lágrima.
Não tenho caixinha de músicas
Para que possa lembrar da melodia.
Mas tenho seu sorriso,
Para quando eu fechar meus olhos,
Ter a mais bela e eterna sinfonia.
Não tenho mais "boa noite, durma bem"...
Ainda devo aos anjos de minha vida,
Moeda amor.
E é difícil falar de amor,
Mas eu ainda o sinto.

2001

Para Elaine.