sexta-feira, janeiro 18, 2008

167

Fui agente funerário por muitos anos em Minas Gerais. Morava num hotel barato com delicioso café da manhã: pão com manteiga e café. Naquela época tinha fortes dores de cabeça e um rádio que não sintonizava Zé Betio direito. Já a Rádio Globo, pegava bem. Ali tinha parede no teto, não via o telhado igual da fazenda. Aos sábados íamos eu, Truta e o Padrin ao cinema, na época que era permitido fumar lá dentro. As sessões também tinham pausa para o mictório e para o cafézinho. Eu comprava bala chita e guardava pra semana inteira. O segredo estava em pedir a moça de avental azul as balinhas. Ela sorria quando elogiava o seu cabelo e me dava mais algumas. Um dia até ganhei um chocolate dela. Nunca a vi fora do cinema. Meses depois o cinema fechou e só sobrou as quermesses, as folias de reis, alguns bailes, uns bares e a tal discoteca. Até gostava de algumas músicas, mas não entendia o que falavam...Depois do serviço, o Padrin me ajudava com o violão. Não sabia tocar direito mas era duas ou três toadas que fazendo direitinho chamava a atenção das moças para nós. Um dia parou um Opala do ano, como nínguem havia visto ainda e de lá de dentro saiu um velho com um chapéu novo combinando com os bancos do automóvel. Perguntou se sabíamos tocar uma do Zé Rico. O Padrin disse que sabia embora não soubesse. E começamos os dois...minha voz tremia e o o velho do Opala cantava e chorava conosco...Emocionado, tirou um 38 da cintura e deu dois tiros para cima. Contou que o filho havia morrido na noite passada e a moda que nos cantamos era a sua preferida. Passou um pouquinho, foi na venda, nos deu uma garrfa de cachaça e se foi. Essa garrafa durou até eu ir embora dali. O Truta bebia até cair. Quem o acudia era Sebastiana, sua filha do meio - porque a mais velha tinha morrido e a nova morava com a vó. A Sebastiana gostava de novela e de tricot. Sabia as músicas de Altemar Dutra de cor e cantava sempre nas festas da igreja. O Truta não gostava e achava que a filha dava "desgosto". Eu a achava bonita. Tão linda quanto a moça de São Paulo. Sebastiana era de Campo Grande e sabia dançar bonito. O Truta era do Rio Grande do Sul e toda aquela coisa de tradição foi com a família para o Mato Grosso. Agora em Minas, sem a mulher e só com a Sebastiana, o Truta só bebia e chorava.

sábado, janeiro 05, 2008

166

Parece existir um esforço tremendo da distância destruir gradualmente qualquer elo. um suplício para cada egoísta essa constatação.

terça-feira, janeiro 01, 2008

165

Por que não escrevo para Ela? Nas brigas elétricas do meu pensar, ajo estranhamente quando retribuo o carinho Dela. Nos lampejos de humor, sorrio e choro o nome Dela. Quem vê pensa que estou aflito, sem jeito, desarrumado, maltrapilho, encasquetado, negligente, entediado, aloprado...um felizardo do acaso. De fato o amor po Ela é caso sério, no entanto, traio minha querida com essa dama incontrolável chamada esperança. Uma paixão indecente e promíscua com essa velha produz algo que se comemora quando ela nasce e chora-se quando morre. Fácil como dizer "eu te amo" é sentir que gosto de você. Sucos desses dias são um tanto amargos e mal-cheirosos e mesmo assim há um conflito marcado sem hora para acontecer na minha decisão chamada "sentir": olho nos seus olhos, sem o reconhecimento do mundo, e digo que não vivo sem o seu modo único de me amar sem falar de amor.

164

Ali ou por ali, perto da vida e próximo à morte, um velho barco parou de funcionar por alguns minutos. Sem seus medos à bordo e com todos por perto, avistou uma brecha de luz que vaiava a água que ali parava. Não se pode ir muito longe com o casco comprometido, disse a luz. Se ainda quer no mar ficar, precisa vagar só e sem luz. O que ainda vale é o navegar.

163

Participarei do vento, mesmo que esse não tenha nem um pingo de discernimento...vou com o vento. Na casa da moça bonita há coisas sagradas que os somente os gatos conhecem. Nos nós do coração, ela faz misérias para ser nova na ilha idosa.