sexta-feira, junho 05, 2009

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Mil novecentos e oitenta foi um ano raro. De um dia para outro a lua foi habitada como fungos em pão de forma.


Primeira leva de palavras.

As crianças de hoje não fazem idéia das cores do planeta Terra antes da Fenda. Do planeta azul vinha outras paletas de cores sem igual. Um dia claro de verão era um espetáculo gratuito de vidas e comentários sobre o futuro, sobre o amanhã. As máquinas ainda respondiam a um "Enter" e não havia exopolítcas estampadas em hologramas a cada esquina. Quando perguntadas sobre o que achavam sobre tal governante, as pessoas se mostravam prontas a responder e compor uma estatística. Elas não entendiam bem o porquê das coisas e nem faziam perguntas demais. Era uma época descontraída onde a música não havia sido convertida em arma e o medo tinha nome de "terrorismo". Salvaram-se poucas pessoas pela religião e algumas milhares pelas biopolíticas do doutor-maestro Michel.

Naquela época meus bisavós, como bons espiritualistas, pensavam na morte como uma passagem: tomavam o 'fim' como um novo começo; Típico da época onde esperança tinha peso teológico e valia como variável macroeconômica. Mais forte que a esperança somente a crença na incerteza. Imbuídas de "incerteza", aquelas pessoas criavam moedas e distribuíam entre si...

De uns três ou quatro e367 para cá, enfatizaram o uso da rica língua portuguesa para melhor expressar o novo momento. De longa data, sempre oferecem esses aperfeiçoamentos para nós: todo e367 ganhamos uma nova língua para cada um escrever para as antenas do passado. Cada "hora" recebemos novos pacotes de palavras. É fato que escrever é algo antiquado (obsoleto;arcaico) mas ainda sim é uma atividade bem vista pelos maestros...denota erudição da alma explorar línguas remotas - embora limitadíssimas ao neocomunicar contemporâneo. De bom grado também é pastichar antigos escritores...muitos se divertem ainda hoje com decalques daqueles que foram professores dos professores na compreensão do tempo e do espaço do planeta antes da Concórdia.

Segunda Leva de Palavras

O e367 ultrapassou o conceito de tempo enquando base de todas as intuições. Foi possível suprimir o próprio tempo no entendimento dos fenômenos em geral posto que a priori, fora nos apresentado pela Fenda que a realidade dos fenômenos era possível para além do tempo. O tempo não possuía apenas uma dimensão. Tempos diferentes surgem e são simultâneos e não necessariamente sucessivos. Só concordamos, que tempos diferentes são partes de um mesmo tempo. Logo o contaminado sentido que nossos seres tinham de tempo impediu os mesmos de ultrapassar o própio. Com a Fenda, o tempo deixa de ser referência e ganha evidência de não-negação em e367, um novo posto para passagem de consciência.

Primeiro, o tempo e nossa lembrança ao seu longo, o processamento das memórias declarativas envolvia o hipocampo, córtex entorrinal, além de outras estruturas corticais. As memórias procedurais ou implícitas são adquiridas gradativamente e, além disso, evocadas de modo inconsciente. Para exemplicar melhor: as memórias procedurais são as nossas habilidades de montar quebra-cabeças, andar de bicicleta, nadar. As memórias de procedimentos ou implícitas sofrem pouca modulação pelas emoções e estados de ânimo.


Costumávamos classificar as memórias (a grande medicina), em relação ao seu conteúdo, em dois grandes grupos: as memórias declarativas (aquelas para fatos ou eventos e qualquer informação que podiam ser expressas conscientemente) e as memórias procedurais, as quais envolviam basicamente habilidades motoras e/ou sensoriais, também chamadas de hábitos.
Tempos depois, após as precárias experiências no chamado século XXI, a memória deixava sua casa inaugural para um periférico de alguns poucos yobibytes - correspondentes binários caíram em desuso após a Fenda.
Sabemos hoje que nossas memórias são frgmentos de uma holomemória e dispensam condição material para a existência. Seu acesso foi evidenciado após a Exopolítica das Energias instaurada na Concórida.

Em relato breve, mas esclarecedor, o estupefato maestro Valentin, no primeiro encontro em sua holomemória anunciou:

"Antes, o que tínhamos por memória voluntária, sobretudo uma memória de mera inteligência e visão, que não nos dava, do passado, mais do que faces sem realidade; sobretudo se um perfume ou um sabor encontrados em algumas cirucunstâncias totalmente diferentes, evocavam em nós, à nossa revelia, o tal "passado", passávamos a sentir o quanto este passado fora diferente daquilo que acreditávamos lembrar, e que nossa memória voluntária pintava, como os maus pintores, com cores sem realidade. Já nesta primeira incursão a holomemória, eu (que sou eu ainda) encontrei todas as passagens de vida com nitidez além da ótica comum. Uma realidade de fato 'real' sem os obscurantismos comuns ao 'tempo'. Em verdade digo, sou mais do que sou e nunca deixei de ser algo em função do tempo."

Um comentário:

Anônimo disse...

bom começo...
mas, e a trama?
personagens?