domingo, setembro 20, 2009

213

Transgressões.

Era uma época de velocípedes vermelhos de rodas azuis barulhentos nas ruas.
Pessoas com menos de trinta anos podem não imaginar tão bem uma situação assim, mas houve uma época mais segura no Brasil: quando o medo instaurado pela dominância do catolicismo dava o ar da graça nos lares das famílias. Nossos maus comportamentos eram facilmente associados a um tipo de pecado: carnais, habituais, velhos, mortais e o mais temido, o original. Evidentemente, para um bom moço acadêmico, essa segurança era hobbesiana e custava liberdade. Quanto mais medo do inferno, menos a polícia trabalhava.
Enfim, o cume a ser alcançado nessa minha divagação é o seguinte: a sedução como "pecado".
Não é um pecado simples para ser anulado por uma cantiga ou um não-sincero arrependimento: nele eu caí e derrubei alguns rebentos.
O meu desespero (na falta de palavra mais adequada para esse desassossego) arde como queimadura.
Cativar as pessoas não é algo prático, que se venda ou teorize. É muito mais singular do que os significados de "seduzir". É uma dádiva só compreendida pelos não simpáticos e os solitários.
Diretamente do inferno envio este post em português ruim, confesso: em busca de ser amado eu seduzi algumas pessoas nessa vida.
Agi assíduamente para que se apaixonassem por mim, para que eu me sentisse querido e não-abandonado.
Ardiloso esse mecanismo não, Deus? Parece até coisa de Satanás...ou do primo dele, Darwin.
Numa síntese teológica-psicanalítica-científica: a sedução é um mecanismo de sobrevivência da espécie conhecido pelos mais temerosos a Deus por "tentação".

"Oh Deus! Adornaste o pavão e o condenaste tanto pelas multicoloridas penas? É uma pena muito pesada para se carregar, Pai Eterno!"

Não me arrependo de todos os meus pecados, padres, mas essa queimadura está doendo muito em mim e nas vítimas desse estrategema egoísta. Gostaria de pagar meus débitos com algo melhor que a minha vida.

Como faço para deixar minha gentileza de lado? Onde deixo meu velotrol para não intimar ninguém a gostar de mim?

212

Falta dança? Falta grave? Meus excessos, minhas drogas e meus medos. Sólidos tropeços e falta de sincronia. Eu não me proponho a dança hoje. Essa sinergia de passos/modos e princípios/balanço não gravitaram em torno do meu corpo. Admiro a arte "dança", mas prefiro a pintura. Sinto muito ultimamente em não agradá-las com esse preâmbulo milenar para o sexo. Desculpe-me, sim? Sei que faltam alguns vários defeitos para sanar para te satisfazer...mesmo sabendo que a insaciabilidade me devorará primeiro.

sábado, setembro 19, 2009

211

Os sinônimos para "mudar".

Poucos viram minhas lágrimas. Não é exatamente exclusividade tal desinformação. Acontece que me afoguei nelas no passado e desde então, todos os dias eu as bebo um pouco. É como se a dor - o seu excesso -contribuísse para um paladar mais apurado para o sublime. Provavelmente é um equívoco, uma presunção ou mesmo uma fuga. No entanto, preferi levar as coisas para o rio dessas mágoas e refletí-las na medida do impossível. Ali, no seu avesso, naquela imagem que não é relato fiel daquilo que é, encontro novidades não tão claras aos olhos e nem mesmo na reprodução braille. Processo desgastante similar? Somente aquele que "vive" os enfermos, que na beira de seus leitos, suplicam às drogas um pouco mais de minutos com seus queridos. Não faço confusão aqui.
Somente levo ao rio o verbo "mudar" em busca de possibilidades:

Deslocar (de um lugar para outro lugar). Não é este reflexo que busco. A sugestão do dicionário indica que as coisas continuam como estão...só mudam de lugar. Uma dor de dente em Atlântida ainda é uma dor de dente na Lua.

Variar. Dizem felizes "é bom variar". Outro sinônimo que não me agrada. Parece encarcerado. "Constantemente saboreio vinhos franceses. Quando decido variar, caríssimos também são para mim os chilenos, argentinos e brasileiros.". Pode a uva americana ser isenta de pecado, o sujeito continuará preferindo aqueles produzidos nos vinhedos da Domaine de la Romanée-Conti.

Substituir. Uma lâmpada queima e eu a substituo: ambas iluminam. No entanto, cabe aqui uma prudente ressalva: há lâmpadas mais fortes e que brilham intensamente. Caberá aquele que substitui, decidir levar menos ou mais luz e contabilizar os custos de uma ou outra.

Renovar. Acho improvável a sinonímia. Tornar novo "novamente". Não há sinais de fontes de juventude, ou melhor, desconhecemos os velhos novos, salvo um novo advento das pesquisas de genes nos próximos anos.

Alterar. Lembra "perturbar". Este reflexo me diz algo. Talvez por levar mais barulho. Por ter cara de "conjunto solução". Por assemelhar-se a transformação. Uma besta alterada já não é mais a fera de antes. Se morto for, vivo não é. Pela violência natural que uma mudança (de verdade) traz a um ser humano. Sem muito fino trato.

Este sinônimo me apraz.

Por alterar o curso do rio. Por mudar meu/seu paladar. Por me fazer chorar mais ou alterar as formas com que vejo os seus/meus reflexos. Por secar o rio. Por valorizar o amor e sua "funcionalidade". Por te ver chorar e me indignar. Por não te conhecer tão bem (e por nunca saber o que só você sente), mas te indicar os benefícios de mudar...não para o que considero "melhor" ou "pior", mas simplesmente por te ver "mutar".

Porque, de fato, mudar é natural.

210

Natureza. Parte 1. Parece que somente a natureza faz delivery de pequenas doses de verdade. Se o agora é tão duvidoso, ontem era tão certo. Falta adjetivos ao cético, este que nas suas várias teorias, deveria conhecer tão bem o âmago das coisas e devolver a nós os detalhes mais próximos da verdade, prefere respostas booleanas...curtas e grosseiras. Lembro-me. Como se fosse ontem: Atravessar a rua e olhar para todos os lados...poderia vir algo de cima ou de baixo, além da esquerda e da direita. Aquele sinal da minha infância era um forte indício daquilo que eu viria e me tornar: um acidente. Não encontrei momento consciente (disponível na memória) onde ambicionasse uma vida ordinária, mas a natureza me fez acreditar na força de um tufão ou de uma correnteza. Meus modelos de heróis ainda possuem reproduções do poder da natureza. A tal natureza faz com que nós, ditos humanos, deixem a vida sem muita explicação. Ela não nos explica seus motivos. E não há verdade maior que essa. "Uma árvore que nunca foi vista por você, existe ou não?" Eu garanto que ela existe...

204

Organizado? Desordenado até segunda ordem.